Carta à Minha Pequena

Carta à Minha Pequena

Uma luz guardada para você

Minha filha, minha Pequena,

Enquanto você lê estas linhas, talvez ainda pequena demais para compreender todas as estações do coração, quero acreditar que alguma parte doce de você possa sentir isto: existe um jardim esperando pela sua risada.

O papai escreve como quem acende uma vela em uma casa distante. Não para vencer a noite à força, não para apressar o amanhecer, não para pedir que uma criança carregue perguntas de adultos. Escrevo apenas para lembrar que a luz continua aqui, quieta, fiel, respirando com amor.

A distância entre nós parece um rio largo pedindo uma ponte. E não é curioso, minha filha, que até os rios mais fundos continuem procurando o mar? Eu sinto sua falta nas coisas simples: no silêncio da casa, no espaço vazio do colo, no brinquedo que parece esperar sua mãozinha, no vento que passa pela janela como se perguntasse pelo seu nome.

Antes mesmo de qualquer palavra caber na sua boca, você já havia feito do meu peito uma casa pequena, com janelas abertas. Desde que você chegou, minha Pequena, o mundo ganhou uma manhã por dentro. Como se cada canto escuro tivesse recebido uma fresta de sol.

Eu escrevo porque, quando os braços não alcançam, a palavra tenta virar ponte. E quando a palavra treme, a vela aprende a ficar de pé.

A verdade que não quer pesar sobre você

Minha Pequena, existe uma verdade que mora em mim como farol firme dentro da neblina: nunca pratiquei qualquer ato de violência contra sua mãe, nem contra você. Mas escrevo isso sem colocar peso nos seus ombros, porque criança nenhuma deve ser chamada a julgar tempestades que não escolheu atravessar.

Talvez, quando o tempo abrir suas cortinas, você possa enxergar que o coração do papai sempre quis ser abrigo, nunca tempestade.

Será que uma menina precisa entender tudo para ser amada inteira? A semente não precisa conhecer o nome da chuva para crescer. Ela apenas recebe a água, rompe o escuro da terra e procura a luz.

Eu não escrevo para que você compreenda agora. Escrevo para deixar uma lanterna no caminho, caso um dia você queira saber que o amor esteve acordado.

O amor como memória viva

Há lembranças que ficam guardadas como botões de madrepérola dentro de uma caixinha antiga. Eu me lembro das suas pequenas danças, dos risos que nasciam sem pedir licença, do jeito como seu olhar transformava qualquer quarto simples em picadeiro de estrelas.

Será que você se lembra, mesmo sem lembrar com palavras, do peso leve do seu corpo no meu colo? Para mim, sua presença sempre foi esse milagre de pouco tamanho e infinito sentido: uma estrela pequena pousada no centro da casa.

E não é bonito pensar que houve manhãs em que uma música baixinha parecia arrumar a casa por dentro, enquanto mãos cuidadosas preparavam aquilo que quase ninguém vê? Eu guardo gratidão por cada gesto silencioso oferecido a você, por cada cuidado que fez sua infância ter cheiro de roupa limpa, janela aberta e pão chegando à mesa.

Cuidar de uma criança é acender faróis que muitas vezes ninguém aplaude. É fechar janelas antes do frio. É vigiar o sono. É dobrar panos. É servir alimento. É proteger sem plateia.

Por isso, minha filha, eu agradeço por tudo aquilo que manteve você aquecida, alimentada, cuidada e vestida de infância.

A casa que espera sem invadir

Minha Pequena, uma casa não é feita apenas de paredes. Ela é feita de passos que desejam voltar.

O papai tem uma casa por fora e outra por dentro. E nessa casa de dentro existe sempre uma cadeira pequena, uma fruta cortada, um livro aberto e um lugar esperando por você.

Quando vejo um brinquedo parado, penso se ele também escuta o vento perguntando por quem deveria brincar ali. Às vezes, a casa fica tão quieta que parece segurar a respiração. Mas dentro desse silêncio existe um jardim trabalhando no escuro, como raiz que não desiste da primavera.

Talvez nossa ponte comece com um aceno. Talvez com uma foto. Talvez com uma palavra. Talvez com uma chamada breve. Talvez apenas com o tempo aprendendo a respirar de outro jeito.

Eu não quero invadir portas. Não quero empurrar o tempo. Não quero arrancar flor do jardim antes da hora. Quero apenas regar, com paciência, o vínculo que nasceu antes de qualquer distância.

A vela não briga com a noite. Ela apenas fica acesa.

É assim que o papai tenta amar de longe: sem fazer barulho demais, sem pedir que você carregue o que não é seu, apenas conservando uma luz pequena e fiel para quando seu coração puder vê-la.

O aprendizado da dor

O papai também teve falhas, minha Pequena. Quem atravessa tempestades às vezes aprende tarde a proteger melhor a própria vela.

Aprendi com dor, com silêncio e com saudade. Aprendi que amar também é falar com mais cuidado, esperar com mais humildade e deixar que a verdade cresça sem gritar.

Será que existe aprendizado maior do que descobrir que um rio não se atravessa com pressa, mas com pedra, tábua, mão e paciência?

Eu queria ter sabido antes algumas coisas que a dor me ensinou depois. Mas talvez até uma árvore quebrada possa oferecer sombra quando decide continuar viva.

A coragem que desejo para mim não é a que ruge contra o mundo. É a que chega perto sem ferir, protege sem prender e aprende a ser mansa diante de uma criança.

A promessa que não quer vencer ninguém

Minha filha, se um dia você encontrar em algum livro um tigre correndo sob uma lona de circo, talvez possa sentir que ele não corre por pressa, mas por promessa.

Eu penso em você como essa menina montada na coragem: pequena no vestido, enorme no destino, atravessando a noite com uma vela na mão.

Será que uma promessa verdadeira precisa brilhar como fogos? Ou basta sustentar o passo como madeira firme sobre o rio?

Eu prometo do jeito mais calmo que consigo: meu amor por você não quer vencer ninguém. Quer atravessar. Quer permanecer. Quer ser chão onde houver abismo.

Você vem primeiro, minha Pequena.

Não como bandeira contra alguém, mas como estrela-guia para todos os adultos que precisam lembrar que uma criança é jardim, não campo de batalha.

O tempo de uma criança

Os adultos nem sempre lembram que o tempo de uma criança não espera a poeira assentar nos corredores.

Cada riso seu é uma estrela que acende uma vez. Cada palavra nova é um pássaro que não volta igual. Cada abraço perdido é uma página que o vento leva.

Quando penso nos seus minutos, vejo um carrossel inteiro girando com brinquedos, música e confete de manhã. O papai queria estar perto para viver esses minutos com você, não para prendê-los em um pote, mas para recebê-los como quem recebe chuva boa na terra seca.

A saudade tem cheiro de madeira antiga e papel dobrado três vezes. A minha mora nas cartas que escrevo, nos livros que imagino para você, nas frases que tento colocar em ordem como quem arruma lanternas antes de uma travessia.

Uma carta pode ser porta quando leva amor. Eu acredito que sim. Cada palavra que escrevo tenta abrir um vão na parede da distância, não com martelo, mas com uma chave pequena, polida pela paciência.

A ausência não é abandono

Talvez, enquanto você cresce, perceba que a gratidão é uma casa com muitas portas.

Por uma porta entra o seu riso. Por outra entra quem te alimenta. Por outra entra quem te veste. Por outra entra o papai, de longe, trazendo uma palavra lavada em saudade.

Será que você sente, mesmo como quem sente o calor do sol sem saber explicar o sol, que o amor do papai nunca foi embora?

Ele às vezes pareceu escondido atrás de montanhas, mas continuou trabalhando por baixo da terra, como raiz que segura a árvore quando ninguém está vendo.

A ausência não é abandono, minha filha.

Uma estrela deixa de existir só porque uma nuvem passa diante dela? O silêncio não é falta de amor. Às vezes é apenas um quarto escuro onde alguém segura uma vela para não deixar a esperança cair.

A força que sabe ser delicada

Quando o mundo parecer grande demais, imagine um tigre manso se aproximando e deitando ao seu redor como muralha de listras.

Esse tigre é a coragem que eu desejo deixar para você: forte sem ser dura, livre sem ser solta, protetora sem virar jaula.

Um pai pode caber em uma carta quando não pode caber no abraço do dia? Eu tento caber nestas páginas como posso: um pouco em cada metáfora, um pouco em cada pergunta, um pouco em cada fresta por onde a luz insiste em entrar.

Quem sabe um dia você leia estas frases como quem abre uma caixa de fitas antigas e encontre nelas não tristeza, mas cuidado.

Eu não quero que esta carta seja pedra no seu peito. Quero que seja lenço, água, jardim, sombra fresca e caminho possível.

O amor que não grita

O amor verdadeiro não precisa gritar para permanecer.

Ele se parece mais com uma mesa posta antes de alguém chegar, com uma cadeira esperando, com uma janela limpa, com uma xícara que guarda calor depois que a mão se afasta.

Eu penso em você quando vejo o céu mudando de cor. O entardecer parece uma aquarela derramada devagar, e nele imagino seus olhos descobrindo o mundo, como duas lanternas curiosas procurando borboletas.

Talvez um dia você pergunte por que tantas coisas ficaram difíceis, como quem pergunta por que a chuva molha a rua.

Se esse dia chegar, eu quero responder com serenidade, sem colocar trovão nas suas mãos. Quero dizer apenas que os adultos se perderam por caminhos estreitos, mas o amor tentou permanecer largo.

E se você perguntar onde o papai esteve, eu poderei dizer: estive aqui.

Como árvore que não abandona a raiz mesmo quando o vento leva as folhas. Estive aprendendo a esperar, a amar sem exigir, a sofrer sem endurecer, a manter uma vela acesa para você e uma palavra de respeito por quem também faz parte da sua história.

O respeito como ponte invisível

O respeito pode ser uma ponte invisível quando a ponte visível ainda não está pronta.

Eu escolho respeitar o seu tempo, sua infância, sua paz e todos os cuidados que chegam até você, porque um amor que deseja ser casa não pode entrar como tempestade pela janela.

Toda casa precisa de silêncio bom, daquele que não pesa, mas repousa como cobertor. É esse silêncio que procuro escrever aqui: um silêncio com luz de abajur, onde você possa sentir amor sem se sentir chamada a decidir nada.

Um coração pequeno deve ser tratado como jardim de infância: com flores, rega, paciência e sol moderado.

Por isso escolho palavras que não cortam, imagens que não apertam e lembranças que não cobram entrada.

A mão pequena que segura uma vida inteira

Será que uma mão pequena segurando um dedo sabe que está segurando uma vida inteira?

A sua segurou a minha de um jeito que nenhuma distância apagou. Desde então, caminho como quem carrega uma estrela dentro do bolso, com medo de deixá-la cair.

Há saudades que têm peso de pedra e, ao mesmo tempo, asas de passarinho. A minha por você pesa no peito, mas também me levanta, porque me lembra que ainda há uma ponte para construir e um jardim para cuidar.

O amor, quando é verdadeiro, aprende outro caminho em vez de desistir diante do muro.

O meu aprendeu a escrever. Aprendeu a esperar. Aprendeu a respirar fundo. Aprendeu a tocar de leve a porta do tempo sem exigir que ela se abra antes da hora.

Voltar como manhã

Quando a manhã chega, ela não invade o quarto. Apenas clareia aos poucos.

Eu queria que minha presença voltasse assim à sua vida: sem susto, sem peso, sem tempestade. Como luz que entra devagar e deixa as coisas mais nítidas.

Uma menina que cresce cercada de amor não precisa arrancar raiz de raiz para plantar primavera.

O papai deseja ser parte do seu jardim sem tirar nenhuma flor do lugar, porque carinho verdadeiro soma sombra, água e sol.

Minha Pequena, seu nome em mim soa como água limpa descendo pedra. Quando digo “Pequena”, dentro de mim uma porta se abre, uma vela reacende, um tigre ergue a cabeça e a casa inteira parece lembrar para quem foi construída.

Gratidão sem espinhos

Quem cuida de você talvez nem perceba que cada gesto simples vira muralha em torno da sua infância.

Uma comida feita. Uma roupa escolhida. Uma janela fechada contra o vento. Uma música de manhã. Tudo isso também é amor, e eu reconheço como quem reconhece faróis à distância.

A gratidão pode caminhar mesmo quando a vida ficou difícil.

Quero que você saiba, minha filha, que o papai tenta guardar gratidão onde a dor gostaria de colocar espinhos, porque uma criança merece um jardim com menos espinhos e mais caminhos.

Talvez esta carta também possa soprar paz em outros corações, como vento leve passando por cortinas antigas. Talvez algumas frases cheguem a quem precise ouvi-las sem que eu chame pelo nome.

Talvez esse seja o jeito mais cuidadoso de oferecer respeito.

Uma saudade que prepara a casa

Quando digo que sinto saudade, não falo de uma saudade que quer apertar você.

Falo de uma saudade que quer preparar a casa, lavar a xícara, abrir o livro, esperar seu passo e sorrir quando o portão ranger.

Eu não quero apagar nenhuma parte da sua história.

Sua vida é um livro com páginas que muitas mãos ajudam a virar, e eu desejo ser uma página de ternura, não uma dobra pesada que dificulte sua leitura.

Quem sabe um dia cada adulto ao redor de você consiga falar como quem segura uma vela, e não como quem lança faísca.

Eu espero por esse dia com humildade, porque a paz é uma casa que se constrói tijolo por tijolo, muitas vezes em silêncio.

As tábuas da ponte

Uma ponte não fica pronta de uma vez.

Ela nasce primeiro como linha no papel. Depois como madeira. Depois como coragem.

Talvez nossa ponte comece aqui, nesta carta, com uma tábua chamada respeito, outra chamada paciência, outra chamada verdade, outra chamada cuidado.

Se algum dia você sentir que a noite está grande, lembre que uma vela pequena ainda obriga a escuridão a recuar um pouco.

Não posso prometer que todos os caminhos serão fáceis. Mas posso prometer que meu amor prefere acender luz a espalhar sombra.

Um abraço pode sobreviver em pensamento até encontrar dois braços de novo?

Eu acredito que sim. Sinto você em mim como abraço guardado, um círculo de calor esperando o tempo certo para deixar de ser sonho e virar presença.

A carta como copo d’água

Quando penso em você brincando, vejo um tambor acordando minutos adormecidos.

Cada risada sua deve ser confete no ar. Cada passo, uma fita colorida. Cada palavra nova, uma bandeirinha balançando no alto da lona do mundo.

O papai escreve para você sem pedir nada em troca.

Esta carta não é cobrança, minha Pequena. É um copo d’água deixado na mesa, uma flor no parapeito, uma vela perto da janela, uma prova quieta de que o amor continua.

As estrelas trabalham assim: brilham sem puxar ninguém pelo braço.

Quero aprender com elas. Ficar visível sem invadir. Permanecer sem exigir. Iluminar sem cegar. Amar sem transformar seu coração em lugar de disputa.

A verdade caminha devagar

A verdade não precisa correr.

Ela pode caminhar como quem atravessa uma ponte segurando uma criança pela mão.

Eu escolho o passo calmo, porque o que é verdadeiro não precisa empurrar a porta. Pode esperar que a manhã encontre a fechadura.

Minha Pequena, falo com você como quem planta sementes que talvez só floresçam daqui a muitos verões.

Aceito esse tempo, porque o amor que respeita uma criança não colhe antes da estação. Apenas rega e agradece.

Existe coragem mais bonita do que continuar doce depois de atravessar pedras?

Tento ser esse tipo de coragem. Não a que assusta, mas a que sustenta. Não a que aponta, mas a que acolhe. Não a que quebra, mas a que costura estrelas.

As marcas e o fio dourado

Quando o coração fica cansado, ele pode deitar um pouco sem abandonar a estrada.

O meu descansa escrevendo para você, como viajante que tira os sapatos à beira do rio, lava os pés feridos e depois olha de novo para a ponte.

Algumas marcas não precisam desaparecer para virar beleza.

Há remendos que brilham quando são costurados com cuidado. O papai deseja que tudo o que foi difícil se transforme, um dia, em linha dourada no tecido da nossa história.

Uma estrela remendada continua sendo estrela.

Se alguma parte da nossa vida pareceu rasgada, minha filha, talvez o amor ainda possa passar linha, fazer desenho novo e mostrar que o cuidado não nega a ferida, mas também não deixa que ela mande sozinha.

Perdoar o tempo não significa fingir que ele não levou nada.

Significa reconhecer perdas sem transformar o coração em pedra.

Uma casa comprida chamada carta

Um livro inteiro pode ser apenas uma carta quando o amor é grande demais para caber em uma página.

Algumas cartas são casas compridas, com muitos cômodos, muitas janelas, muitos corredores de memória e uma porta sempre voltada para o reencontro.

O mesmo amor que sente falta também agradece.

Sinto falta do seu abraço e agradeço por você existir. Sinto falta da sua voz e agradeço por cada cuidado que a preserva. Sinto falta do seu cheiro e agradeço por sua infância continuar florescendo.

Ser amada por mim não exige negar amor a ninguém.

O amor do papai quer ficar ao lado dos outros amores bons que te cercam, como uma árvore no jardim, oferecendo sombra própria sem arrancar a sombra das demais.

Família deveria soar como mesa maior, não como porta menor.

Eu sonho com uma mesa onde você possa sentar sem medo, onde cada adulto fale baixo, onde o pão seja partido com calma e onde seu riso seja a música principal.

Minha oração por você

Existe oração mais simples do que pedir que uma criança cresça em paz?

A minha oração por você é esta: que seu coração seja campo aberto, que sua alegria encontre sol, que seu sono seja protegido, que sua infância não precise carregar malas de adultos.

Quando o papai diz que te ama, imagine uma fonte que não pergunta se merece correr.

Ela apenas corre, limpa as pedras, canta no caminho e continua oferecendo água, mesmo quando ninguém está ali para escutar.

Talvez um dia você reconheça no meu amor não uma tempestade, mas um porto.

Eu desejo que sim. Mas não empurro esse reconhecimento. Deixo-o amadurecer como fruta no galho, confiando que o tempo, quando tratado com ternura, sabe revelar o perfume certo.

A esperança depois da chuva

A esperança se parece com um passarinho teimoso pousado no fio depois da chuva.

Às vezes ele está molhado, pequeno, tremendo. Mas ainda canta. E esse canto é o que o papai guarda quando a saudade tenta transformar tudo em inverno.

Em mim, cada lembrança sua tem uma cor.

Seu riso é amarelo de manhã. Seu olhar é azul de céu lavado. Sua mãozinha é rosa de concha. Sua ausência, embora doa, é um cinza que tento atravessar com uma vela acesa.

Quando olho para uma página branca, ela parece um chão que ainda não nasceu.

Escrever para você é colocar tábuas sobre esse chão, uma a uma, até que a estrada apareça e alguém possa atravessar sem cair no abismo.

A liberdade de crescer

Há algo mais seu do que a liberdade de crescer sem ser pressionada a entender cedo demais?

Por isso, minha filha, deixo as perguntas abertas como janelas, não como armadilhas. Deixo as metáforas leves como pipas, não como pedras.

Se um dia você quiser apenas brincar e não falar de nada, isso também será uma forma perfeita de reencontro.

Podemos deixar o brinquedo abrir a conversa. Deixar uma cor, uma música ou um desenho fazer a primeira ponte.

Talvez seja por uma foto. Talvez por um desenho. Talvez por uma palavra. Talvez por uma chamada pequena como vela no canto da sala.

Qualquer começo será grande para mim, porque uma gota também anuncia o rio, e um aceno também pode levantar uma ponte.

Chegar com cuidado

Quando a gente se encontrar, eu não precisarei de grandes discursos.

Bastará ver você segura. Ouvir sua voz. Talvez segurar sua mão. Talvez agradecer em silêncio pela manhã ter voltado.

O coração de uma criança reconhece, antes das palavras, quem chega com cuidado.

Eu desejo chegar assim: devagar, com mãos limpas de pressa, com olhos de farol, com voz de cobertor, com amor paciente como jardim depois da chuva.

Quando você crescer e puder fazer perguntas maiores, espero saber respondê-las com paz.

Já me preparo por dentro, limpando espelhos, tirando poeira das palavras, escolhendo luz em vez de fumaça.

Alguns espelhos contam errado quando estão cobertos de poeira.

Eu quero que, um dia, você possa olhar com calma e ver o papai não como sombra, mas como mão que escreveu à noite, voz que esperou, vela que não desistiu.

Uma frase que serve de abraço

Uma frase pode servir de abraço quando o abraço ainda não chegou?

Então receba esta, sem peso e sem pressa:

O papai te ama como casa ama o retorno, como rio ama o mar, como vela ama proteger um pouco de luz no meio da noite.

Minha filha, talvez a melhor forma de amar você agora seja continuar construindo, mesmo sem saber quando a ponte ficará pronta.

Eu sigo colocando madeira sobre o rio: uma tábua de respeito, uma de gratidão, uma de paciência, uma de ternura, uma de verdade.

Você vem primeiro também dentro desta carta, em cada frase que evita ferir, em cada lembrança que tenta cuidar, em cada silêncio que escolhe não acusar.

Nada nestas páginas deve ser maior do que sua paz.

Caminhar sem pedir que você corra

Enquanto você vive seus dias de menina, quero acreditar que há uma parte do mundo preparando uma manhã mais clara.

Depois de muita noite, a lona do céu se abre e o sol entra no picadeiro com trompetes silenciosos.

Minha Pequena, guarde em algum lugar macio do coração que existe um pai caminhando na sua direção sem pedir que você corra.

Eu caminho com cuidado, como quem leva uma tigela cheia de água, sabendo que amor derramado por pressa também pode assustar.

Quando a vida te oferecer perguntas difíceis, desejo que você possa respondê-las com a delicadeza de quem segura uma borboleta.

Que sua força seja firme nos pés e leve nas mãos. Capaz de proteger sem machucar. Capaz de escolher sem odiar.

Você não é pouca porque é pequena.

Foi pequena nos braços, pequena nos sapatos, pequena na voz, mas nunca foi pouca no sentido, porque dentro de você cabia o mundo que o papai queria proteger.

O tigre e a vela

Todo pai deveria aprender que proteger também é saber esperar do lado de fora da porta.

O tigre da nossa história sabe disso. Ele guarda a janela sem ocupar o quarto, vigia a estrada sem impedir o vento, permanece forte sem deixar de ser manso.

Se algum dia você sentir medo, imagine esse tigre deitado perto da vela, fazendo uma muralha quente contra a noite.

Ele não existe para assustar ninguém. Existe para lembrar que a coragem pode ser dourada, silenciosa e paciente.

A noite não vence quando encontra uma vela. Apenas aprende que não manda sozinha.

Mesmo uma luz pequena, se protegida com as duas mãos, consegue abrir uma clareira dentro do escuro.

É essa clareira que quero deixar para você, minha Pequena: uma pequena manhã dentro da carta.

Que nela você possa respirar, brincar, descansar, perguntar, voltar quando quiser e sair quando precisar, como quem entra em uma casa sem tranca.

Um jardim sem donos

Amar também é deixar a porta sem chave por dentro.

Quero que esta carta seja assim: uma casa aberta, mas respeitosa, onde você não é chamada a escolher, defender, explicar ou decidir. Apenas a saber que é amada.

Quando penso em sua infância, vejo uma horta de estrelas que precisa de mãos cuidadosas, água limpa e nenhuma pressa.

Por isso, minha filha, desejo que todos nós sejamos jardineiros melhores: menos donos da terra, mais atentos às flores.

Agradeço, mesmo sem chamar ninguém pelo nome, a quem rega esse jardim todos os dias.

A gratidão às vezes é uma carta dobrada no bolso, uma música baixinha, uma janela fechada antes do frio, um prato servido quando ninguém está olhando.

No fundo, talvez todos desejem que você tenha paz como lençol limpo depois do banho.

Eu desejo essa paz para você com todo o coração.

A dor fica comigo, a flor vai para você

Minha Pequena, perceba isto: falo da dor sem entregar a dor para você carregar.

A dor é minha, como pedra que seguro. Para você, tento oferecer apenas a flor que nasceu ao lado dela, porque criança merece perfume, não peso.

A maré ensina as pedras voltando muitas vezes, sem destruir a praia inteira.

Eu volto a estas palavras com paciência, alisando arestas, lavando durezas, tentando fazer da saudade um caminho menos cortante.

Um pai pode ser forte justamente quando escolhe ser delicado.

A força que desejo deixar para você não levanta muros altos. Ela segura guarda-chuva, acende farol, empurra balanço, espera do lado certo da ponte.

Quando você rir de novo perto de mim, talvez o mundo pareça um circo abrindo todas as lâmpadas.

Talvez eu não diga muito. Talvez eu só sorria, como quem vê a estrela voltar ao alto da lona e entende que a noite não teve a última palavra.

O começo pode ser pequeno

Nossa primeira conversa não precisa explicar o passado.

Pode começar pequena, como uma semente no algodão.

Talvez baste um “oi”. Talvez um desenho. Talvez uma pergunta sobre uma cor. Talvez o silêncio tranquilo de quem sabe que a ponte existe, mesmo antes de atravessá-la inteira.

Minha filha, receba esta última parte como quem recebe um cobertor leve sobre os pés.

O papai não pede pressa. Não pede prova. Não pede resposta.

Apenas deixa amor no parapeito, como pão fresco esfriando para quando alguém chegar.

Existe assinatura mais verdadeira do que continuar sendo amor quando a distância tenta mudar o nome das coisas?

Eu continuo seu papai. Continuo aprendendo. Continuo esperando. Continuo agradecendo por você. Continuo desejando que sua vida seja ampla como céu de manhã.

Casa, ponte e luz

Minha Pequena, meu amor por você não precisa vencer ninguém, porque amor verdadeiro não é espada: é casa.

Não é muro: é ponte.

Não é incêndio: é luz entrando devagar pela janela.

Quando seu coração puder escolher o próprio ritmo, talvez sinta que o papai nunca deixou de caminhar na sua direção.

Com amor, com esperança e com a calma de quem continua acendendo o farol, deixo estas páginas descansarem como vela protegida dentro da noite.

Que elas fiquem aqui, minha filha, até que um dia você as leia como quem encontra uma casa acesa no caminho.

Com amor, seu papai Thomaz Franzese

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