A DOR QUE A JUSTIÇA NÃO VÊ QUANDO UM FILHO VIRA ARMA

22/04/2025 21 min de leitura

Uma investigação sobre os efeitos devastadores da alienação parental no genitor alienado revela uma realidade de trauma extremo, dor comparada à perda de um filho vivo e um sistema que frequentemente amplifica o sofrimento em vez de contê-lo.


Há uma forma de tortura que não deixa hematomas visíveis, não requer instrumentos físicos e pode ser aplicada por anos sem que a vítima consiga provar sua existência. Ela ocorre em apartamentos de classe média, em condomínios de alto padrão, em bairros periféricos. Atravessa classes sociais, níveis educacionais e regiões do país. Utiliza como instrumento não cordas ou eletricidade, mas algo infinitamente mais precioso: uma criança. E sua eficácia reside exatamente na assimetria perversa que cria — de um lado, um genitor que usa o filho como arma; do outro, um genitor que vê, dia após dia, seu amor parental ser envenenado e transformado em repulsa na mente da criança que mais ama.

Chama-se alienação parental. E por mais que a literatura jurídica e psicológica tenha avançado na compreensão dos danos causados às crianças — vítimas primárias deste processo de manipulação sistemática —, pouco se fala, pouco se escreve, pouco se denuncia sobre o que acontece com o outro lado da equação: o genitor alienado. Aquele que, sem cometer crime algum, sem representar ameaça alguma, vê-se subitamente transformado em monstro aos olhos do próprio filho.

Esta reportagem é sobre esses homens e essas mulheres. É sobre o terror psicológico que experimentam, a devastação emocional que os consome, o desespero que os leva às fronteiras do suportável. Baseada em dezenas de estudos acadêmicos, relatos clínicos, processos judiciais e entrevistas com vítimas, profissionais de saúde mental e operadores do direito, esta investigação revela um quadro que deveria envergonhar qualquer sociedade que se pretenda civilizada.

O que emerge é a descrição de um dos mais devastadores processos de destruição psicológica que um ser humano adulto pode experimentar — frequentemente descrito pelas próprias vítimas como uma experiência “pior que a morte”.

A DOR QUE NÃO TEM NOME NEM RITUAL

Carlos não sabe como definir o que sente. Engenheiro civil, 47 anos, não via o filho mais novo há três anos e sete meses quando conversamos pela primeira vez. Não por decisão judicial, não porque representasse perigo, não porque houvesse qualquer evidência de comportamento inadequado. A separação ocorreu porque sua ex-esposa, depois de uma disputa patrimonial mal resolvida, iniciou um processo que especialistas em alienação parental conhecem bem: a desconstrução sistemática da figura paterna na mente do menino.

“A dor é um terror que não passa”, ele diz, a voz trêmula após quatro horas de conversa. “Não é como quando alguém morre. Na morte, você sofre, você chora, você faz o luto. Mas existe um corpo, existe um ritual, existe um ponto final. Na alienação, não. Meu filho está vivo, está a quinze quilômetros da minha casa, e eu não posso vê-lo. Ele acredita que sou uma ameaça. Ele acredita que sou um monstro. Isso não é dor. É terror.”

A palavra “terror” aparece com frequência impressionante nos relatos de genitores alienados. Não é por acaso. A literatura psicológica especializada documenta que a alienação parental produz no genitor alienado uma forma específica de estresse traumático que combina elementos do luto complicado com características do transtorno de estresse pós-traumático, mas com peculiaridades que tornam essa experiência única no espectro do sofrimento humano.

A dra. Helena Fonseca, psicóloga clínica e pesquisadora que atende casos de alienação parental há mais de vinte anos em São Paulo, explica que a natureza artificial da perda é o que a torna especialmente devastadora. “Quando um filho morre, por mais doloroso que seja, existe um processo biológico e social de luto. A rede de apoio se mobiliza. As pessoas entendem sua dor. No caso do genitor alienado, a perda é vivida como uma amputação sem anestesia, mas sem o reconhecimento social que acompanha outras formas de perda. A criança está viva, mas inacessível. E, frequentemente, a narrativa que circula socialmente é a de que aquele genitor ‘fez algo para merecer’ aquilo.”

Esta dimensão — a da incompreensão social — amplifica exponencialmente o sofrimento. Genitores alienados relatam que um dos momentos mais dolorosos que enfrentam é ter que explicar a situação a pessoas próximas e perceber a incredulidade nos olhos do interlocutor. “As pessoas pensam que, se um filho rejeita o pai ou a mãe, é porque existe algum motivo”, explica Fonseca. “Essa presunção de culpa é devastadora para quem já está sendo destruído emocionalmente.”

AS LÁGRIMAS QUE NÃO SECAM

Uma das manifestações mais imediatas e persistentes do sofrimento do genitor alienado é o choro frequente. Não se trata do choro ocasional que acompanha momentos de tristeza. É um choro que irrompe sem aviso, em situações cotidianas, frequentemente sem gatilho identificável. Um choro que trai a tentativa de manter a compostura e que expõe a ferida aberta que a alienação cria.

Em um caso que se tornou referência entre profissionais da área, um juiz de vara de família do interior de Minas Gerais, conhecido por sua postura rigorosa e mais de três décadas de magistratura, pediu licença médica após se emocionar até as lágrimas durante uma audiência em que um menino de oito anos, claramente instrumentalizado, repetia como um mantra as acusações infundadas que lhe haviam sido implantadas contra o pai. “Ele virou para mim depois da audiência e disse que em trinta anos de carreira nunca tinha visto uma maldade tão pura sendo infligida de forma tão sistemática”, relata uma servidora que testemunhou a cena e pediu para não ser identificada.

As lágrimas do genitor alienado não são apenas sintoma. São também evidência. Evidência de que o vínculo que está sendo destruído não é uma abstração jurídica, mas uma realidade neurobiológica. A ciência contemporânea já demonstrou que o vínculo entre genitor e filho ativa os mesmos circuitos cerebrais que o amor romântico, e que sua ruptura forçada produz uma síndrome de abstinência neuroquímica comparável à de drogas pesadas. As lágrimas são a manifestação externa de um cérebro que está, literalmente, em crise de abstinência do filho.

A MENTE SOB CERCO: DEPRESSÃO, ANSIEDADE E O ESPECTRO DO COLAPSO

Se as lágrimas são a manifestação mais visível, o que ocorre nas camadas mais profundas da psique do genitor alienado é um processo de erosão que, se não interrompido, pode levar a danos psiquiátricos permanentes.

A depressão crônica é uma das consequências mais documentadas. Diferente da tristeza reativa que acompanha eventos adversos da vida, a depressão que emerge no contexto da alienação parental possui características próprias. Ela é alimentada por uma sensação persistente de impotência e pela natureza interminável da situação. “O genitor acorda todos os dias com a esperança de que algo mude, e todos os dias essa esperança é destruída. Isso cria um ciclo neuroquímico que esgota os recursos adaptativos do cérebro”, explica o psiquiatra Rafael Castilho, que coordena um grupo de apoio a genitores alienados em Brasília.

Estudos de seguimento com filhos adultos que foram alienados na infância revelam que mesmo quando, anos depois, a verdade emerge e a relação é restaurada, as sequelas da depressão experimentada pelo genitor durante os anos de alienação frequentemente persistem. “Não é incomum que esses pacientes continuem apresentando sintomas depressivos décadas depois, mesmo após a reconciliação. O dano é duradouro”, afirma Castilho.

Paralelamente à depressão, a ansiedade generalizada emerge como companheira constante. O genitor alienado vive em estado de hipervigilância permanente. Cada mensagem no celular pode ser uma nova acusação. Cada encontro supervisionado pode ser o palco para uma nova denúncia infundada. Cada processo judicial pode trazer uma nova derrota. O sistema nervoso simpático permanece cronicamente ativado, e o corpo vive em um estado de alerta que nunca se desliga.

Este estado de ansiedade crônica é particularmente perverso porque cria um ciclo de retroalimentação negativa com a criança. “A criança chega para o encontro com o genitor alienado, e o genitor está ansioso, está com medo, está hipervigilante. A criança percebe isso, mesmo que inconscientemente, e isso a deixa também ansiosa, o que ‘confirma’ a narrativa do alienador de que o genitor alienado é ‘instável’ ou ‘perigoso'”, explica a dra. Fonseca.

Alguns genitores desenvolvem o que os clínicos chamam de “nervosismo sem causa aparente” — episódios de agitação intensa que irrompem em momentos de calma objetiva. É o corpo que se tornou incapaz de experimentar tranquilidade, um sistema de alarme quebrado que dispara mesmo quando não há ameaça detectável. “Eu estava em casa, domingo à tarde, sem fazer nada, e de repente comecei a tremer, o coração disparou, comecei a suar frio. Não tinha acontecido nada, não tinha recebido nenhuma notícia. Meu corpo simplesmente esqueceu como é ficar em paz”, relata Mariana, publicitária de 41 anos que luta há seis anos para manter contato com a filha.

O ESPECTRO DA PARANOIA E OS LIMITES DA RAZÃO

Em casos mais graves, o estresse crônico da alienação pode precipitar quadros psiquiátricos mais complexos, incluindo o desenvolvimento de ideação paranoide. Esta é uma das manifestações mais difíceis de manejar, tanto para os profissionais quanto para os próprios genitores, porque opera em uma zona cinzenta entre a percepção distorcida e a realidade.

“O problema é que o genitor alienado frequentemente tem razões reais para desconfiar”, explica o psiquiatra Castilho. “Ele está sendo vítima de uma campanha de difamação. Há pessoas conspirando contra ele. Há mentiras sendo contadas. A questão é que a mente, sob estresse extremo e prolongado, pode começar a ver conspirações onde elas não existem, ampliando o escopo da ameaça para além do que é real.”

Genitores alienados relatam começar a desconfiar de terapeutas, de assistentes sociais, de juízes, de familiares que tentam ajudar. “Você começa a achar que todo mundo está contra você, que faz parte do sistema que está te destruindo”, diz Carlos. “E o pior é que, em grande medida, você está certo. O sistema realmente não te protege. A diferença é que a paranoia te faz acreditar que isso é um plano deliberado e não incompetência ou negligência.”

A SOLIDÃO DO EXILADO EM SUA PRÓPRIA VIDA

Se há um aspecto da experiência do genitor alienado que merece atenção especial pela sua capacidade de amplificar todos os outros danos, é o isolamento progressivo que a alienação impõe.

Começa com a perda do contato com o filho — ou a transformação desse contato em algo tenso, artificial, doloroso. Mas rapidamente se estende. Amigos em comum do ex-casal se afastam, frequentemente porque foram cooptados pela narrativa do alienador ou porque simplesmente não sabem como lidar com uma situação tão complexa e preferem a distância. Familiares, mesmo quando solidários, muitas vezes não compreendem a profundidade do sofrimento e oferecem conselhos simplistas que apenas aumentam a sensação de incompreensão. Novos relacionamentos amorosos são dificultados pela carga emocional que o genitor carrega e pela presença constante de um conflito judicial que consome energia, tempo e recursos financeiros.

O resultado é uma solidão profunda que vai muito além da ausência de companhia. É um isolamento existencial, uma sensação de ter sido lançado em um universo paralelo onde ninguém pode verdadeiramente alcançá-lo. “Você está em uma sala cheia de pessoas e se sente completamente sozinho, porque ninguém entende o que você está vivendo. As pessoas acham que é exagero, que é drama, que é porque você não superou a separação”, descreve Mariana.

Este isolamento é agravado pelo estigma social que frequentemente acompanha o genitor alienado. Em muitos casos, especialmente quando há falsas acusações de abuso — uma tática recorrente em processos de alienação —, a reputação do genitor é destruída antes que qualquer investigação seja concluída. Vizinhança, escola, círculos profissionais: todos são expostos a acusações que, mesmo quando posteriormente provadas falsas, deixam marcas permanentes.

“O estrago está feito”, diz o advogado especializado em direito de família Antônio Ribeiro. “Mesmo que você prove que a acusação era falsa, sempre fica aquela dúvida. ‘Onde há fumaça, há fogo’, pensam as pessoas. O genitor alienado é condenado sem julgamento, e a absolvição nunca é completa.”

A MORTE CIVIL: QUANDO A IDENTIDADE É DESTRUÍDA

Uma das dimensões mais perversas da alienação parental é o ataque sistemático à identidade do genitor alienado. Não se trata apenas de afastar a criança — trata-se de destruir a imagem do genitor aos olhos do filho e da comunidade.

Genitores alienados relatam sentir-se “descaracterizados”, “apagados”, “transformados em lixo”. A campanha de desmoralização conduzida pelo alienador frequentemente ataca exatamente as qualidades que o genitor mais valoriza em si mesmo. “Eu sempre fui um pai presente, participativo, amoroso. De repente, minha filha me olha como se eu fosse um estranho perigoso. Você começa a duvidar de si mesmo. Será que eu sou mesmo essa pessoa horrível que estão dizendo que eu sou?”, questiona Mariana.

A psicóloga Helena Fonseca explica que este processo de erosão da autoimagem é particularmente danoso porque atinge a própria base da identidade. “Ser pai ou mãe é, para muitas pessoas, um componente central de quem elas são. Quando essa dimensão é atacada e destruída, o que resta é uma crise de identidade profunda. O genitor se pergunta: se eu não sou mais pai/mãe, quem sou eu?”

Esta crise de identidade é amplificada pela impotência que o genitor experimenta diante do sistema. A morosidade judicial, a dificuldade de produzir provas de algo tão sutil quanto manipulação psicológica, a sensação de que nada do que se faça é suficiente para reverter a situação — tudo isso contribui para uma sensação de aprisionamento existencial.

“Você está encurralado. Cercado. Refém de uma situação que você não criou, que você não merece e da qual não consegue escapar”, descreve Carlos. “Você vê seu filho sendo destruído psicologicamente e não pode fazer nada. Você vê seu vínculo sendo envenenado e não pode fazer nada. Você vê mentiras sendo contadas sobre você e não pode fazer nada. É uma impotência absoluta.”

O ENCONTRO QUE DÓI: QUANDO O AMOR É RECEBIDO COM REPULSA

Um dos momentos mais dilacerantes na experiência do genitor alienado é o encontro com o filho que foi programado para rejeitá-lo. Em casos moderados a severos de alienação, a criança pode manifestar repulsa, medo ou ódio em relação ao genitor alienado — sentimentos que são expressão não de experiências reais, mas da internalização da narrativa do alienador.

“Há poucas coisas mais devastadoras do que ver seu filho te olhar com medo”, diz Mariana. “Aquela criança que você embalou, que você cuidou quando estava doente, que corria para os seus braços quando estava assustada — de repente ela recua quando você se aproxima. Ela te olha como se você fosse uma ameaça. E você sabe que aquilo não é real, que ela está sendo manipulada, mas isso não diminui a dor. Talvez até aumente.”

Em alguns casos, a criança chega a manifestar rejeição explícita, recusando-se a falar com o genitor, devolvendo presentes, afirmando que não quer mais vê-lo. Para o genitor, cada um desses gestos é uma punhalada que atinge o centro mesmo de sua humanidade.

“Meu filho de seis anos me disse que eu era um monstro. Um monstro. Ele aprendeu essa palavra com a mãe, obviamente. Mas ouvir isso da boca do seu filho… é uma dor que eu não desejo para ninguém. Para absolutamente ninguém”, relata Carlos, com lágrimas nos olhos.

O dano não se limita ao momento do encontro. A rejeição continuada vai progressivamente minando o próprio vínculo afetivo. O genitor, exausto de tanto sofrer, pode começar a se afastar emocionalmente como mecanismo de proteção. É o que os especialistas chamam de “afrouxamento do vínculo” — um processo gradual em que o amor parental vai sendo substituído por uma distância defensiva que, embora compreensível do ponto de vista psicológico, representa exatamente a vitória do alienador.

“Quando o genitor desiste, quando o vínculo se rompe definitivamente, a criança se torna órfã de pai ou mãe vivo. E essa é uma das maiores tragédias que a alienação parental produz”, afirma a dra. Fonseca.

O CORPO GRITA: AS MARCAS FÍSICAS DE UMA GUERRA PSICOLÓGICA

O sofrimento do genitor alienado não se limita ao domínio psicológico. Como toda forma de estresse crônico severo, a alienação parental produz manifestações somáticas que evidenciam a conexão profunda entre mente e corpo.

As manifestações psicossomáticas são variadas: dores crônicas sem causa orgânica identificável, alterações gastrointestinais, insônia severa, hipertensão arterial, disfunções imunológicas que resultam em adoecimento frequente. O corpo do genitor alienado expressa fisicamente o que a psique não consegue processar.

Em casos extremos, documentam-se manifestações dermatológicas intensas. Um relato clínico que circula entre profissionais da área descreve o caso de um pai que desenvolveu coceira severa e generalizada após dois anos de alienação parental intensa. O paciente se coçava até produzir lesões, “até sair os pedaços”, segundo seu próprio relato. Os dermatologistas não encontravam causa orgânica. O prurido cedeu apenas quando, por circunstâncias específicas do caso, a alienação foi interrompida e o contato com a criança foi restabelecido.

“O corpo fala o que a boca não consegue dizer”, comenta o psiquiatra Castilho. “Quando você vê um genitor com sintomas físicos inexplicáveis que surgem no contexto de um processo de alienação, você está vendo a manifestação corporal de uma dor psíquica que ultrapassou a capacidade de elaboração mental. É o corpo que passa a gritar.”

A JUSTIÇA QUE ADOECE: O CALVÁRIO JUDICIAL

Se a alienação parental é a doença, a via judicial que deveria ser a cura frequentemente se torna um fator de agravamento do quadro. Genitores alienados descrevem o sistema de justiça como “um segundo algoz”, “uma máquina de moer gente”, “um labirinto sem saída”.

O primeiro problema é a morosidade. Processos que envolvem alienação parental podem se arrastar por anos, e cada mês de espera é um mês em que a alienação se consolida, o vínculo se deteriora e o dano à criança e ao genitor se aprofunda. “A justiça que tarda, na alienação parental, não é apenas injusta — é devastadora. Porque enquanto o processo tramita, a criança está sendo envenenada e o genitor está sendo destruído”, resume o advogado Antônio Ribeiro.

O segundo problema é a dificuldade probatória. A alienação parental é um processo sutil que ocorre no ambiente doméstico, longe de testemunhas, frequentemente sem evidências documentais. O alienador sabe o que está fazendo e sabe como não deixar rastros. O genitor alienado se vê diante da tarefa impossível de provar algo que todos os envolvidos sabem que está acontecendo, mas que não se materializa em provas tangíveis para os autos.

O terceiro problema — e talvez o mais perverso — é que o sistema pode ser instrumentalizado pelo alienador. As falsas acusações, especialmente de abuso sexual, são a arma nuclear da alienação parental. Uma vez feita a acusação, a dinâmica se inverte: o genitor alienado passa a ser investigado, o contato com a criança é suspenso preventivamente, e o alienador ganha exatamente o que queria — o afastamento completo. Mesmo que a investigação conclua pela falsidade da acusação, o estrago está feito. O genitor foi exposto, a criança foi convencida de que algo aconteceu, e o vínculo foi rompido.

“Você vira réu sem ter cometido crime algum, sem ter feito absolutamente nada. E passa a gastar toda sua energia, todo seu dinheiro, toda sua sanidade mental tentando provar sua inocência. É devastador. É uma inversão perversa onde a vítima vira ré e o agressor vira vítima”, descreve Carlos.

A batalha judicial impõe ainda um desgaste financeiro significativo. Advogados, perícias, avaliações psicológicas, custas processuais — tudo isso em um momento em que o genitor já está emocionalmente exausto e frequentemente com sua capacidade de trabalho comprometida pelo estresse. “Eu gastei tudo que tinha. Economias de vinte anos foram consumidas em honorários advocatícios. E ainda não acabou”, relata Mariana.

O ENCERRAMENTO QUE NÃO VEM: PERVERSIDADE DE UMA PERDA SEM RITUAL

A literatura sobre luto e perda ensina que o ser humano precisa de encerramento para elaborar experiências dolorosas. Precisamos de rituais, de despedidas, de um ponto final que nos permita reorganizar nossa vida psíquica e seguir adiante.

A alienação parental nega este encerramento de forma particularmente cruel. O filho está vivo. O genitor sabe onde ele está. Existe, tecnicamente, a possibilidade de que algo mude, de que a verdade venha à tona, de que a criança cresça e entenda o que aconteceu. Esta esperança, que em outras circunstâncias seria um recurso positivo, torna-se uma tortura adicional. Porque impede o luto. Porque mantém a ferida aberta.

“É pior que a morte”, diz Carlos, repetindo uma frase que aparece em praticamente todos os estudos e relatos sobre alienação parental. “Quando alguém morre, você sofre, mas existe um corpo, existe um funeral, existe um túmulo que você pode visitar. Existe um ponto final. Na alienação, não. Eu sei que meu filho está ali, a quinze quilômetros de distância, e que ele me odeia, e que isso não é culpa dele, e que talvez um dia ele entenda. Essa possibilidade é o que me mantém vivo e é também o que me mata um pouco a cada dia.”

A comparação com a morte não é apenas retórica. Psicólogos que trabalham com genitores alienados documentam que muitos descrevem sua experiência como mais dolorosa do que a perda de entes queridos por morte — incluindo, em alguns casos, a perda de outros filhos. A diferença qualitativa reside na artificialidade da perda, na presença física da criança combinada com sua ausência emocional, e na ausência de rituais sociais que validem o sofrimento.

“Você está de luto, mas ninguém reconhece seu luto. Você perdeu um filho, mas o filho está vivo. Você é uma mãe sem filho, um pai sem filho, mas juridicamente você ainda é genitor. É um limbo existencial do qual é muito difícil sair”, explica a dra. Fonseca.

QUANDO A DOR ENCONTRA SEU LIMITE: O ESPECTRO DO SUICÍDIO

Chegamos ao ponto mais sombrio desta reportagem, mas que não pode ser evitado se queremos ser fiéis à realidade do que a alienação parental produz. O acúmulo de todos os fatores descritos — a dor emocional intensa, a depressão crônica, a ansiedade incessante, o isolamento social, a destruição da identidade, a impotência absoluta, o desgaste financeiro, a perda sem ritual — pode levar a um desfecho que não é incomum entre genitores alienados.

“O suicídio entre genitores alienados não é raro”, afirma o psiquiatra Rafael Castilho com a gravidade de quem já perdeu pacientes para esta tragédia dentro da tragédia. “E quando digo ‘não é raro’, quero dizer que na minha experiência clínica e na literatura especializada, este é um risco real e presente que precisa ser ativamente monitorado.”

Estudos recentes sugerem que a exposição à alienação parental pode aumentar o risco de ideação suicida e suicídio em até doze vezes quando comparado com a população geral. É um número que deveria causar alarme em qualquer sociedade que se importa com a saúde mental de seus cidadãos. E, no entanto, o tema permanece praticamente ausente do debate público.

Os relatos de genitores que chegaram a este ponto extremo são de uma crueza que dispensa adjetivos. Descrevem noites em claro planejando a própria morte como única saída para uma dor que se tornou insuportável. Descrevem o cálculo frio de que sua ausência talvez fosse melhor para os filhos do que sua presença difamada. Descrevem a sensação de que o mundo seria um lugar melhor sem eles, exatamente a mensagem que o alienador implantou em suas mentes dia após dia, mês após mês, ano após ano.

“Eu cheguei muito perto. Muito perto”, diz Mariana, a voz baixa. “O que me salvou foi uma amiga que percebeu e me levou para uma emergência psiquiátrica. Mas nem todo mundo tem essa amiga. Nem todo mundo tem essa rede. E tem muita gente que não aguenta.”

O QUE PODE SER FEITO: NOTAS PARA UMA ESPERANÇA POSSÍVEL

Esta reportagem não tem final feliz, porque a realidade que ela descreve não tem finais felizes fáceis. Mas tem, talvez, algumas indicações de caminhos possíveis.

O primeiro é o reconhecimento. Reconhecimento de que a alienação parental existe, de que é uma forma grave de abuso psicológico que vitima crianças e genitores, de que o sistema de justiça brasileiro não está preparado para lidar com ela de forma adequada. Enquanto o tema for tratado como “briga de ex-casal” ou “disputa de guarda”, o sofrimento descrito nestas páginas continuará se repetindo, silencioso e invisível.

O segundo é a capacitação. Juízes, promotores, advogados, psicólogos, assistentes sociais — todos os profissionais que atuam nas varas de família precisam de formação específica para identificar precocemente os casos de alienação parental e intervir antes que o dano se torne irreversível. A alienação é progressiva. Quanto mais cedo for identificada e interrompida, menor o dano para a criança e para o genitor.

O terceiro é o apoio. Genitores alienados precisam de suporte psicológico especializado. Precisam de grupos de apoio onde possam compartilhar suas experiências com pessoas que entendem sua dor. Precisam de acesso a tratamento psiquiátrico quando necessário. Projetos de lei que tramitam no Congresso buscam institucionalizar programas de apoio a vítimas de alienação parental — estas iniciativas precisam ser conhecidas e apoiadas.

O quarto é a celeridade processual e a efetividade das decisões judiciais. De nada adianta um juiz reconhecer a existência de alienação parental se a decisão não é cumprida, se não há consequências para o alienador que persiste na conduta, se o processo se arrasta por anos enquanto a criança é envenenada psicologicamente. O sistema precisa de mecanismos mais ágeis e eficazes.

Finalmente, e talvez mais importante, é preciso falar sobre o tema. Romper o silêncio. Dar voz a estes homens e mulheres que estão sofrendo em silêncio, isolados, envergonhados, destruídos. Esta reportagem é uma tentativa nesse sentido — uma tentativa de dizer a cada genitor alienado que ler estas linhas: você não está sozinho. Sua dor é real. O que está acontecendo com você é uma injustiça. E há pessoas que estão lutando para que isso mude.

Carlos ainda não desistiu. Três anos e sete meses depois, ele continua indo às audiências, continua pagando advogados, continua comparecendo aos encontros supervisionados que são concedidos a conta-gotas. Continua acordando todos os dias com a esperança de que algo mude.

“Me perguntam por que eu não sigo em frente, por que não reconstruo minha vida. E a resposta é simples: porque eu sou pai. E ser pai não tem botão de desligar. Enquanto eu estiver vivo, eu vou lutar pelo meu filho. Mesmo que ele me odeie. Mesmo que ele me veja como um monstro. Porque eu sei que um dia ele vai entender. E nesse dia, eu quero estar aqui.”

A voz embarga, mas ele não chora. Não desta vez. Há uma determinação em seus olhos que sobreviveu a tudo que esta reportagem descreveu. Há ali a evidência de que, mesmo nas profundezas do desespero, o amor parental pode ser uma força que resiste.

O sistema não pode continuar falhando com os Carlos e as Marianas deste país. As crianças que eles amam merecem ter seus pais de volta. E os pais merecem ter de volta suas vidas, sua saúde mental, sua dignidade.

O terror invisível precisa se tornar visível. E precisa acabar.