DO ARADO AO IMPÉRIO: A EPOPEIA TRATORISTA QUE REDEFINIU A AGRICULTURA MUNDIAL
Índice do Guia
- A odisseia do trator nórdico: quando o ferro forjou o destino de uma civilização
- PRÓLOGO: O FERRO QUE FALOU MAIS ALTO QUE AS NAÇÕES
- I. AS RAÍZES DE UM IMPÉRIO: MUNKTELLS E O NASCIMENTO DA ERA DOS TRATORES
- II. A UNIÃO QUE FORJOU UMA LENDA: BOLINDER-MUNKTELL E O NASCIMENTO DO BM
- III. VOLVO ENTRA EM CENA: A CONQUISTA DA ERA DO DIESEL
- IV. O DESPERTAR FINLANDÊS: A JORNADA DOS VALMET
- V. A CONQUISTA DO MUNDO: EXPANSÃO E INOVAÇÃO
- VI. A UNIÃO DOS NÓRDICOS: VOLVO BM E VALMET
- VII. A ERA DE OURO: INOVAÇÕES QUE MUDARAM O JOGO
- VIII. A CONQUISTA DOS MERCADOS GLOBAIS
- IX. A FAMÍLIA VALTRA: UM LEGADO PARA O FUTURO
- EPÍLOGO: UM LEGADO DE FERRO
A odisseia do trator nórdico: quando o ferro forjou o destino de uma civilização
PRÓLOGO: O FERRO QUE FALOU MAIS ALTO QUE AS NAÇÕES
Há momentos na história em que o destino de uma civilização se decide não nos campos de batalha, mas nos campos de lavoura. Não nas capitais dos impérios, mas nas pequenas oficinas onde homens de visão transformam o ferro bruto em ferramentas de progresso. Esta é a história de como um punhado de suecos e finlandeses, movidos pela audácia de construir o impossível, criaram não apenas máquinas, mas uma linhagem de gigantes que mudaram para sempre a relação entre o homem e a terra.
Desde o primeiro Munktells que emergiu das forjas de Eskilstuna em 1913, até os sofisticados Valtra do século XXI, cada modelo conta uma história de superação, inovação e resistência. Não se trata meramente de uma crônica industrial, mas de um testemunho vivo de como o conhecimento técnico, quando aliado à perseverança, pode transcender fronteiras e criar legados que perduram por gerações.
Nesta odisseia, o trator não é apenas uma máquina: é o protagonista de uma revolução silenciosa que transformou pântanos em campos férteis, florestas em terras produtivas e sonhos em realidade. É o herói anônimo que, sob o sol escaldante do Brasil ou sob a neve implacável da Lapônia, cumpriu sua missão com a tenacidade do aço.
I. AS RAÍZES DE UM IMPÉRIO: MUNKTELLS E O NASCIMENTO DA ERA DOS TRATORES
1.1 O visionário de Eskilstuna: Theofron Munktells e o primeiro passo
No outono de 1832, quando a Europa ainda vivia sob o eco das guerras napoleônicas, um filho de clérigo chamado Theofron Munktells fundou uma pequena oficina mecânica em Eskilstuna, na Suécia. Pouco sabia ele que estava plantando a semente de uma das mais duradouras linhagens de tratores do mundo. Aos 27 anos, com uma audácia que desafiava sua origem humilde, Munktells já havia construído a primeira máquina impressora fabricada na Suécia, em 1830, antes mesmo de fixar residência definitiva em Eskilstuna.
O que distinguiu Munktells de outros industriais de sua época foi uma visão que transcendia o mero artesanato. Ele compreendeu que a mecanização agrícola não era uma opção, mas uma necessidade inadiável. Quando as ferrovias começaram a se espalhar pela Suécia na década de 1850, Munktells já estava pronto para entregar a primeira locomotiva sueca, apelidada de “Förstlingen” (A Primeira). Entre 1853 e 1893, suas oficinas produziram 31 locomotivas que ajudaram a conectar um país que se modernizava a passos largos.
Mas foi no campo que Munktells deixou sua marca mais profunda. As máquinas agrícolas estacionárias – os chamados locomóveis – tornaram-se um verdadeiro sucesso de vendas. Quase 7.000 unidades foram fabricadas até 1921, e algumas delas encontraram seu caminho para destinos exóticos como Brasil, Argentina e Rússia. Nesse movimento, já se anunciava o caráter global que caracterizaria a linhagem do trator nórdico.
1.2 Bolinder: o motor da revolução
Enquanto Munktells consolidava sua reputação em Eskilstuna, em Estocolmo, os irmãos Carl Gerhard e Jean Bolinder estabeleciam em 1844 uma oficina e fundição que se tornaria igualmente lendária. Mas foi em 1893 que os Bolinder deram seu salto mais significativo: o primeiro motor de combustão interna fabricado em série na Suécia. Este não era um motor qualquer – era o precursor de uma linhagem que dominaria os mares do mundo.
O motor de óleo bruto de dois tempos Bolinder tornou-se tão popular que, no início da década de 1920, estima-se que detinha 80% do mercado mundial de motores marítimos. As lendas sobre sua confiabilidade eram inúmeras. Conta-se a história do filho de um comerciante de Lille que, tendo encontrado barris de vinho do Porto flutuando no Canal da Mancha, decidiu usá-los como combustível. Para seu espanto, o motor Bolinder continuou funcionando suavemente. O mistério só foi resolvido mais tarde pelo técnico de serviço: havia combustível suficiente na longa linha de combustível para que o vinho nunca realmente alcançasse o motor. Mas a lenda já havia se espalhado, e com ela, a reputação de invencibilidade dos motores Bolinder.
1.3 O primeiro trator nórdico: 1913, o ano da virada
Em 1913, o mundo estava à beira de uma transformação. Henry Ford havia lançado seu Fordson nos Estados Unidos, mas na Escandinávia, Munktells estava prestes a fazer história com seu próprio trator. O Munktell 30-40 era um gigante – pesava oito toneladas, com rodas traseiras de aço de 2,1 metros de diâmetro, e seu motor de óleo bruto semi-diesel de dois cilindros e 14 litros de cilindrada trabalhava a uma velocidade constante de 550 rpm.
O consumo específico de combustível era de aproximadamente 275 gramas por cavalo-vapor por hora – números que, em perspectiva histórica, parecem quase primitivos quando comparados aos 150-160 g/cvh dos motores diesel modernos. Mas, para a época, era uma revolução. A potência nominal era variável, geralmente 30 hp, mas com injeção de água, podia atingir 40 hp. A transmissão oferecia três velocidades à frente: 2,8, 3,6 e 4,4 km/h. Segundo os registros, o grande Munktells arava cerca de um acre por hora. Foram fabricadas 31 unidades deste modelo inaugural, algumas exportadas para Dinamarca, Alemanha e Rússia.
O modelo seguinte, o Munktell 20-24, reduziu o peso para 4,2 toneladas e encurtou a distância entre eixos para 2,56 metros – curiosamente, a mesma medida dos modernos tratores Mega. O motor de um cilindro (12,7 litros) operava a apenas 400 rpm, exigindo volantes maciços em ambos os lados para lidar com as forças de inércia. Mas foi em 1921 que Munktells deu um passo decisivo: adotou o design de estrutura de ferro fundido inspirado no Fordson, criando o modelo 22. Este trator apresentava 38 rolamentos SKF como prova de qualidade – um detalhe que revela a atenção aos componentes que se tornaria marca registrada da linhagem.
II. A UNIÃO QUE FORJOU UMA LENDA: BOLINDER-MUNKTELL E O NASCIMENTO DO BM
2.1 A fusão de gigantes: 1932, o ano da convergência
A Grande Depressão varria o mundo em 1932, mas foi precisamente nas cinzas da crise econômica que nasceu uma das mais importantes alianças industriais da Suécia. Handelsbanken, o banco que havia financiado ambas as empresas, percebeu que a união forçosa entre Munktells Mekaniska Verkstads AB e J. & C.G. Bolinders Mekaniska Verkstad era não apenas desejável, mas inevitável. A nova empresa foi batizada AB Bolinder-Munktell, e seria conhecida para sempre como BM.
O timing foi impecável: coincidiu com o centenário de Munktells, celebrado com pompa e circunstância. A fusão trouxe consigo uma reestruturação substancial. A maquinaria de produção de Bolinder foi transferida de Estocolmo para Eskilstuna, e os programas de motores foram racionalizados. A produção de motores Munktell e Avance foi encerrada, com os motores Bolinder tornando-se o único propulsor dos produtos BM. O portfólio pós-fusão era amplo: motores, tratores, debulhadoras, enfardadeiras estacionárias, equipamentos para serrarias, niveladoras de estradas e máquinas-ferramenta.
2.2 O modelo BM 25 e a era dos pneus de borracha
Em 1934, a BM lançou seu primeiro modelo verdadeiramente novo desde 1921: o BM 25. Seu motor Bolinder W5 era um semi-diesel de dois cilindros, 5,3 litros, com potência nominal de 32 hp. A inovação mais significativa era que, ao contrário dos motores de velocidade constante anteriores, este operava com velocidade variável, com rotação nominal de 900 rpm. O tempo de aquecimento antes da partida foi reduzido para 3-4 minutos – uma melhoria substancial.
A transmissão manteve o layout transversal, facilitando a operação da polia da correia. A embreagem de acionamento também era usada para desengatar a polia. As quatro velocidades à frente (3,2-4,2-5,2-6,2 km/h) poderiam ser aumentadas com a introdução dos primeiros pneus de borracha no final da década de 1930. O modelo foi renomeado BM2 em 1939.
2.3 A guerra e os combustíveis alternativos: a engenhosidade em tempos difíceis
A Segunda Guerra Mundial trouxe desafios únicos para a indústria sueca. Com o racionamento de combustíveis importados, 42% da frota de tratores sueca foi convertida para operar com geradores a gás alimentados por lenha. Os motores semi-diesel, como os da Bolinder, eram mais difíceis de adaptar a essa tecnologia. A solução da BM foi adquirir motores de seis cilindros Otto da AB Volvo. A versão de seis cilindros foi chamada BM4.
Curiosamente, após algumas modificações na cabeça do cilindro, o BM2 podia ser operado com gás de gerador desenvolvendo 85% da potência original. Esta adaptabilidade forçada revelou a engenhosidade dos engenheiros suecos e preparou o terreno para as inovações que viriam no pós-guerra.
III. VOLVO ENTRA EM CENA: A CONQUISTA DA ERA DO DIESEL
3.1 A decisão estratégica: Volvo compra BM
Em 1950, a Volvo deu um passo que redefiniria o mercado de tratores por décadas. A empresa, fundada em 1927 como fabricante de automóveis, adquiriu a AB Bolinder-Munktell por 13,7 milhões de coroas suecas – um valor que, embora significativo, representava menos da metade do faturamento anual da BM. A aquisição, no entanto, foi estratégica: a Volvo precisava de espaço e capacidade para produzir seu modelo de passageiros PV 444 em Gotemburgo, e a transferência da produção de tratores para Eskilstuna era a solução ideal.
A produção combinada de BM e Volvo cresceu para 4.221 unidades em 1950. Os tratores representavam 19% do faturamento total da Volvo. Mas a integração não foi automática – até 1957, as duas marcas com suas respectivas cores foram distribuídas separadamente. Foi somente então que a Volvo pediu à BM que organizasse as vendas dos tratores Volvo também. A fusão e reorganização da rede levou alguns anos, enquanto o nome BM-Volvo se tornava cada vez mais forte.
3.2 O verdadeiro motor diesel: uma revolução silenciosa
Os motores semi-diesel, populares por quase meio século, tornaram-se obsoletos no início da década de 1950. A BM precisava de um motor diesel de quatro tempos com injeção direta. A escolha recaiu sobre o motor Bolinder, que provou ser um sucesso absoluto. O volume de cilindrada de um cilindro era de 1,12 litros, com diâmetro 105 mm e curso 130 mm. A primeira versão, um três cilindros de 3,36 litros, compartilhava as dimensões de cilindro com o motor diesel D67 de seis cilindros da Volvo.
A reputação dos motores Bolinder era tão sólida que a mudança de conceito foi facilmente aceita pelo mercado. O motor era conhecido por sua confiabilidade, economia e longa vida útil. A estrutura básica estava corretamente selecionada: refrigeração líquida, injeção direta e camisas de cilindro úmidas substituíveis. A produção começou em 1952, e a primeira aplicação foi o trator BM 35/36.
3.3 O Boxer e a era de ouro
Em 18 de março de 1959, a BM-Volvo lançou o que se tornaria a estrela mais brilhante da família sueca: o BM-Volvo T 350 Boxer. O motor Bolinder diesel foi desenvolvido com o diâmetro expandido de 105 mm para 111 mm – uma dimensão que deu nome à família de motores “111”. O volume de cilindrada do Boxer era de 3,78 litros, desenvolvendo 52-56 hp. Mas as inovações mais importantes foram na transmissão: 10 velocidades à frente e 2 à ré. A TDP era totalmente independente, utilizando uma embreagem de discos múltiplos Twin Disc de grande diâmetro, acionada manualmente.
O bloqueio do diferencial tornou-se equipamento padrão. A distância entre eixos do Boxer era excepcionalmente longa: 2.305 mm, com peso favorável de 2.400 kg. Os pneus eram grandes: 14-30 ou 11-38. O Boxer foi o produto que criou a alta imagem internacional dos tratores BM-Volvo. Mais de 10.000 unidades foram fabricadas, e a introdução do sistema hidráulico avançado Terra-Trol elevou ainda mais o padrão.
IV. O DESPERTAR FINLANDÊS: A JORNADA DOS VALMET
4.1 Das espadas aos arados: o nascimento do Valmet
Enquanto a Suécia consolidava sua tradição, a Finlândia emergia das cinzas da guerra com uma ambição que desafiava sua posição periférica. Em 1917, quatro anos após o primeiro Munktell, o Barão Gustaf Wrede, engenheiro mecânico formado em Darmstadt e com experiência na indústria automobilística americana, apresentou o primeiro trator projetado e fabricado na Finlândia: o “Kullervo”. O nome foi inspirado no épico nacional Kalevala, e o design baseava-se no Fordson de Henry Ford, utilizando carcaças de ferro fundido como estrutura de suporte de carga, em vez do chassi tipo “escada” dos caminhões.
A produção do Kullervo chegou a cerca de 300 unidades, mas o mercado principal – as vastas planícies da Rússia – foi fechado após a Primeira Guerra Mundial. No entanto, a semente estava plantada. Após a Segunda Guerra Mundial, Barão Wrede foi nomeado diretor da Valmet no início dos anos 1950, e instruiu a organização da Fábrica Estatal de Rifles (Tourula) a desenvolver um trator a diesel em 1955.
4.2 Valmet 15: o “apertador de arame farpado”
Quando a Valmet lançou seu primeiro trator em série, o Valmet 15 (modelo A) em 1952, o mercado estava faminto por tratores pequenos. A Finlândia tinha dezenas de milhares de novas pequenas fazendas estabelecidas por ex-soldados e evacuados, e o trator substituía uma parelha de cavalos. O motor, desenvolvido pela fábrica de Linnavuori (que tinha se especializado em motores de aeronaves durante a guerra), era um quatro tempos, quatro cilindros a querosene, com partida a gasolina. A cilindrada era de 1,5 litros, entregando aproximadamente 15 hp a 2.000-2.200 rpm. O design era o mais simples possível, com ignição por magneto e válvulas laterais.
A transmissão tinha três velocidades à frente e uma à ré. A embreagem tinha 8 polegadas de diâmetro, e a direção era naturalmente mecânica. O trator pesava apenas 780 kg. O sistema de levantamento hidráulico era inicialmente mecânico, controlado por uma longa alavanca com mola de alívio. O arado de uma charrua de 13 polegadas foi desenvolvido em parceria com a Fiskars, e a grade veio da Rosenlew. A fábrica decidiu produzir sua própria máquina de ceifar, uma decisão que se mostrou acertada – dificilmente outro trator serviu como máquina leve e ágil na produção de feno por tanto tempo quanto o pequeno Valmet.
O Valmet 15 recebeu vários apelidos, sendo o mais popular “apertador de arame farpado”. Era um trator econômico – o consumo de combustível era de apenas 3 litros de querosene por hora, segundo o anúncio do fabricante. Mas o sucesso trouxe desafios: os importadores de tratores estrangeiros, assustados com a concorrência doméstica, iniciaram uma pesada operação de lobby em Helsinque.
4.3 Valmet 33 D: a revolução diesel
Em 1957, a Valmet deu um salto tecnológico que surpreenderia o mundo: o Valmet 33 D. Era o primeiro trator do mundo com motor diesel de três cilindros, alta rotação (2.000 rpm) e injeção direta. O motor 309 D tinha cilindrada de 2,69 litros e entregava 37 hp. A decisão de adotar injeção direta, refrigeração líquida e camisas de cilindro úmidas substituíveis provou-se visionária – 35 anos depois, essas características ainda definem os motores de tratores modernos.
A transmissão oferecia seis velocidades à frente e duas à ré – significativamente mais que as cinco à frente e uma à ré da maioria dos concorrentes. O levantamento hidráulico padrão tinha capacidade de 1.350 kg. O tanque de combustível já era instalado no corpo, entre a embreagem e a caixa de câmbio – uma característica que se tornaria marca registrada dos tratores Valmet. Com pneus padrão 11-28, o trator atingia 28,5 km/h na estrada, mais que qualquer concorrente.
Foram fabricados 1.537 Valmet 33, com parte da produção exportada para Brasil e China. Mas o sucesso trouxe uma nova ameaça: a concorrência desleal de preços. A solução da Valmet foi focar na qualidade de exportação, sabendo que um produto de qualidade exportável seria reconhecido no mercado interno.
V. A CONQUISTA DO MUNDO: EXPANSÃO E INOVAÇÃO
5.1 O Brasil e o desafio da nacionalização
Em 1960, a Valmet deu um passo ousado que definiria seu futuro: estabeleceu uma fábrica no Brasil, em Mogi das Cruzes, a 60 km a leste de São Paulo. O governo brasileiro havia decidido produzir tratores nacionais, e a Valmet, com seu modelo 359 D, venceu a concorrência de vinte fabricantes. As regras eram rigorosas: após quatro anos de operação, 95% do valor do trator deveria ser de origem brasileira.
Para cumprir essas exigências, a Valmet escolheu motores MWM (Motorenwerke Mannheim), já fabricados localmente. O modelo foi chamado 360 D, idêntico ao 359 D, exceto pelo motor. O sucesso foi imediato, e a reputação da Valmet cresceu no mercado interno. Até julho de 1962, o 1.000º trator já havia saído da linha de montagem em Mogi das Cruzes.
5.2 A era da ergonomia: Valmet 900
Em 1967, a Valmet revolucionou novamente o design de tratores com o Valmet 900. O gerente de desenvolvimento de produto, Bergius, havia decidido que um tratorista tinha direito a um ambiente de trabalho igual ao de um caminhoneiro. O resultado foi uma cabine integrada ao trator, com montagens de borracha para isolamento de ruído e vibração. O nível de ruído de N95 era considerado tolerável para a época.
O painel de instrumentos era similar ao de um carro, com direção hidrostática – a Valmet foi a primeira cliente da Danfoss para esta tecnologia. Os cabos de mudança foram colocados no lado direito do operador, em vez de entre as pernas. As alavancas estavam concentradas para facilitar o controle. A transmissão era totalmente nova: embreagem dupla padrão, caixa de câmbio totalmente sincronizada com 8+2R velocidades, e TDP com três velocidades (540, 1.000 e TDP para velocidades de campo). A capacidade hidráulica superava todos os padrões da época: 65 litros por minuto, com três funções distintas (posição, tração e pressão). A capacidade de elevação era de 2.900 kg.
Quando apresentado em público, em 1967, causou alvoroço no mundo dos tratores. Raramente tantas inovações haviam sido trazidas ao mercado simultaneamente.
5.3 O primeiro turbo do mundo: Valmet 1100
Em 1969, a Valmet fez história novamente com o Valmet 1100 – considerado o primeiro trator do mundo com motor turboalimentado de quatro cilindros. O motor 411 AS era uma versão turboalimentada do familiar 411 A, com potência de 115 hp SAE (aproximadamente 102 hp DIN). Os agricultores eram céticos em relação a um motor de quatro cilindros de 4,18 litros, já que os concorrentes precisavam de seis cilindros para atingir a mesma potência. Mas os contratantes entenderam o significado do turbo, pois os caminhões suecos turboalimentados já tinham reputação sólida no setor de transporte.
O rádio era equipamento padrão no trator, obviamente pela primeira vez na Europa. O marketing proclamava: “O escritório do agricultor”.
VI. A UNIÃO DOS NÓRDICOS: VOLVO BM E VALMET
6.1 A convergência estratégica: 1979, o acordo histórico
Em outubro de 1979, a Valmet e a Volvo BM assinaram um acordo de cooperação que mudaria para sempre o panorama dos tratores nórdicos. A Scantrac AB foi estabelecida em Eskilstuna em dezembro de 1979, com 50% das ações para cada parceira. A empresa concentrou-se em marketing e desenvolvimento de produtos.
O planejamento do futuro trator nórdico já havia começado em janeiro de 1979. A decisão foi desenvolver modelos nas classes médias de 65-100 hp DIN. A Valmet seria responsável pelo design, mas a experiência dos colegas suecos era crucial. Os novos tratores seriam genuinamente de tração nas quatro rodas, com transmissão de mudança hidráulica em movimento, hidráulica versátil e capacidade de elevação suficiente. A segurança e o conforto da cabine foram prioridades máximas, refletindo a tradição de ambas as empresas.
6.2 O trator nórdico: uma nova raça
Em maio de 1982, a nova gama de tratores nórdicos foi lançada na feira Elmia, em Jonkoping, Suécia. Os modelos Volvo BM Valmet 05 e Valmet 04 representavam o auge da tecnologia. O design foi criado pelo departamento de estilo da Volvo em Gotemburgo, que havia participado do design do modelo de passageiros Volvo 760.
Os tratores foram projetados para serem de tração nas quatro rodas desde o início. O motor foi localizado sobre o eixo dianteiro acionado, deixando espaço para um grande tanque de combustível de 180 litros entre a embreagem e a caixa de câmbio, que também funcionava como elemento de proteção do eixo. A transmissão era totalmente sincronizada, com mudança planetária em movimento (Trac-Trol) disponível em versões de redução ou sobrevelocidade. Os eixos traseiros eram fornecidos com reduções planetárias robustas e freios de discos múltiplos úmidos.
A capacidade de elevação dos 4 toneladas causou preocupação entre os concorrentes, cujas capacidades médias eram uma tonelada e meia inferiores. O uso de dois cilindros de elevação externos e o design bem-sucedido da traseira permitiram construir o piso da cabine plano até a parede traseira, permitindo que o operador girasse o assento 180° para usar implementos traseiros.
6.3 A família se expande: de 305 a 2105
Até 1985, a gama Volvo BM Valmet incluía 15 modelos agrícolas, do 305 (53 hp) ao 2105 (163 hp). O modelo 905 (105 hp) foi lançado com motor seis cilindros naturalmente aspirado Valmet 611 D, atendendo à preferência do mercado por motores de seis cilindros na classe de 90-100 hp.
Em 1985, a Valmet comprou todas as ações da Scantrac AB da Volvo BM, e o direito de usar o nome Volvo BM terminou. Uma ampla fita foi fixada na parte inferior do capô com o nome Valmet em letras maiúsculas. Embora alguns revendedores temessem a perda da famosa marca, o produto já era conhecido por suas qualidades operacionais e alta qualidade.
VII. A ERA DE OURO: INOVAÇÕES QUE MUDARAM O JOGO
7.1 Sigma Power: a revolução da potência inteligente
Em 1996, a Valmet apresentou o que seria um dos maiores avanços na tecnologia de tratores: o Sigma Power. A ideia era simples e revolucionária: por que carregar um trator de 8 toneladas para obter 170 hp quando se pode ter um trator de 5 toneladas que entrega 190 hp na TDP? A transmissão do Sigma Power era idêntica à do 8550 (160 hp), mas a automação elevava a potência do motor para 190 hp quando a TDP estava sob carga, monitorando a deformação torsional do eixo da TDP.
A lógica era impecável: os concorrentes de potência igual, pesando três toneladas a mais, perdiam aproximadamente 15 hp apenas para mover seu próprio peso no solo. O Sigma Power oferecia 30 hp extras para a TDP, e a leveza economizava mais energia pela menor resistência ao rolamento. O nome Sigma (= soma) refletia exatamente essa matemática de eficiência.
O Sigma Power ganhou a medalha de ouro DLG na Agritechnica 1997, um reconhecimento notável que validou a abordagem pioneira da Valmet.
7.2 Customer Order: a revolução da personalização
Em 1994, a Valmet iniciou a implementação em grande escala do sistema Customer Order (pedido personalizado). A ideia era revolucionária em sua simplicidade: por que fabricar tratores que ninguém quer e depois desmontá-los para atender às especificações do cliente? Em vez disso, cada trator seria fabricado de acordo com as especificações exatas do comprador.
A mudança exigiu uma transformação cultural completa, começando dentro da fábrica e se estendendo a importadores, revendedores e vendedores. Havia resistência significativa, mas o sistema provou seu valor. Em 1997, aproximadamente 70% da produção total era de tratores personalizados. A mensagem foi adaptada a cada cultura local: “Skreddersöm” na Noruega, “Bestem selv” na Dinamarca, “Su Tractor Personal” na Espanha, “Massgeschneidete Tractoren” na Alemanha, “Tailor Made” na Inglaterra.
O sistema também criou um vínculo pessoal entre o montador e o cliente. O nome do cliente no documento de fabricação criava um senso de responsabilidade no montador, que sabia que aquele trator especial estava indo para uma pessoa real.
7.3 Valtra CareTel: o trator conectado
A Valmet foi pioneira também na integração de tecnologia de telecomunicações com tratores. O Valtra CareTel combinava sensores no motor, transmissão e hidráulica com um registrador de dados acoplado a um corpo de telefone celular com seu próprio número. O proprietário e o mantenedor autorizado podiam receber informações sobre a condição do trator como mensagens de texto.
Os contratantes com vários tratores foram especialmente atraídos pelo sistema. Surpreendentemente, as empresas de financiamento também se interessaram – com o CareTel, o histórico operacional do trator era um livro aberto, facilitando a avaliação no final do período de arrendamento.
VIII. A CONQUISTA DOS MERCADOS GLOBAIS
8.1 Brasil: o império do Sul
A presença da Valmet no Brasil, iniciada em 1960, consolidou-se como um dos pilares da empresa. Em 1973, a Valmet do Brasil apresentou a “Linha 73”, com cinco modelos, incluindo o Cafeeiro, um trator estreito de apenas 135 cm de largura para fazendas de café e pomares. O modelo 85 id substituiu o 80 id com motor de quatro cilindros de 78 hp.
Em 1989, a Valmet do Brasil bateu recordes de produção, ultrapassando 8.300 tratores, dos quais 1.200 foram exportados. O modelo 1780, lançado nesse ano, tinha motor MWM 5,9 litros turboalimentado de 165 hp, com transmissão 12+4R e novos freios a disco úmidos.
Em 1996, o nome Valmet do Brasil foi alterado para Valtra do Brasil, alinhando-se à nova identidade global da marca. A introdução do sistema de pedidos personalizados no Brasil (“Trator Combinado”) e a oferta de cinco cores diferentes foram bem recebidas pelo mercado.
8.2 Europa: a conquista do Velho Continente
A Valmet estabeleceu empresas de vendas próprias nos principais mercados europeus. Em 1991, foi fundada a Valmet Tractor S.A. em Portugal, com fábrica em Montijo. Em 1992, foram fundadas a Valmet España Tractores S.A. em Madrid e a empresa de vendas na Alemanha, em Landshut, Baviera. A França ganhou sua própria empresa de vendas perto de Orleans em 1991, incorporada dois anos depois.
Em 1989, a Valmet firmou um acordo com a Massey-Ferguson para fabricar tratores de alta potência na fábrica de Beauvais. Os modelos Mega 8300 e 8600 foram apresentados em Copenhague em dezembro de 1989, com transmissão e hidráulica MF. O Mega 8600, com motor Valmet 612 DS de 170 hp, tornou-se o trator Valmet mais potente até então.
8.3 África, Ásia e além
Em 1980, a Valmet e o governo da Tanzânia firmaram um acordo para estabelecer a TRAMA (Tanzania Tractors Manufacturing Company Limited). A montagem de tratores começou em 1983, com o modelo 604 tropicalizado. Quase 200 tratores foram montados em 1983, e 414 em 1984. Modelos como o Valmet 2600 (117 hp SAE) foram adicionados para fazendas maiores.
Em 1997, a Valmet firmou um acordo de licenciamento com a Eicher Tractors na Índia para o modelo Valmet 365 e seu motor 320 D. A Eicher construiu uma nova fábrica em Mandideep, perto de Bhopal, com o objetivo de produzir 5.000 tratores por ano no início do século XXI.
IX. A FAMÍLIA VALTRA: UM LEGADO PARA O FUTURO
9.1 A nova identidade: de Valmet a Valtra
Em 16 de julho de 1997, a Sisu Tractors Inc. mudou seu nome para Valtra Inc. A nova marca, desenvolvida desde o final dos anos 1960, era vista como uma abreviatura tanto de “Valmet tractor” quanto de “Valmet trading”. O novo logotipo, projetado pelo professor Erkki Ruuhinen, apresentava a palavra Valtra em blocos grossos, com um triângulo vermelho separando o V, que lembrava os triângulos afiados do antigo logotipo Valmet.
A partir de 1998, a marca combinada Valtra Valmet foi adotada. Os primeiros tratores com este nome foram lançados em Hannover, Alemanha, na feira Agritechnika.
9.2 A gama 100: o trator mundial
Em novembro de 1997, a Valtra lançou a gama 100, composta por quatro modelos na classe de potência 60-90 hp: 600, 700, 800 e 900. Cada modelo tinha a mesma cabine do 865, grade frontal redesenhada, eixos traseiros reforçados, freios mais eficientes e transmissão 16+8R com divisor. O tanque de combustível tinha capacidade superior a 100 litros, e a força de elevação hidráulica atingia 3,5 toneladas.
O mesmo conceito foi adotado no Brasil, primeiro em modelo aberto e depois com cabine.
9.3 O futuro: HiTech e além
Em outubro de 1998, a Valtra lançou a gama HiTech (90-200 hp), com transmissão controlada por computador. A HiTech incluía uma reversão muito suave com freio de estacionamento integrado, telas de informação e mudança automática do Delta Powershift. O sistema Aires, suspensão pneumática do eixo dianteiro, era uma das características interessantes.
Em 1998, a Valtra já havia fabricado 162.055 tratores na Finlândia e 284.503 no Brasil, totalizando mais de 446.000 unidades, sem contar os tratores Volvo BM (277.467 unidades). A produção total desde 1913 ultrapassava 728.000 tratores.
EPÍLOGO: UM LEGADO DE FERRO
A história do trator nórdico – de Munktells a Valtra – é mais do que uma crônica industrial. É a história de como a engenhosidade humana, combinada com perseverança e visão, pode transformar não apenas máquinas, mas sociedades inteiras. Dos campos gelados da Lapônia às plantações escaldantes do Brasil, passando pelos vinhedos da França e pelos arrozais da Índia, os tratores nórdicos deixaram sua marca indelével.
Cada inovação – do motor diesel de injeção direta ao turboalimentador, da cabine ergonômica ao Sigma Power, do sistema de pedidos personalizados à conectividade CareTel – representou um passo em direção a uma agricultura mais eficiente, mais confortável e mais produtiva. E por trás de cada avanço tecnológico, havia pessoas – engenheiros, montadores, agricultores – que acreditaram que o trabalho poderia ser mais do que mera labuta.
Como escreveu Hannu Niskanen em seu livro, “From Munktells to Valtra”, a marca nórdica tem uma história longa e notável. 730.000 tratores fabricados ao longo de 85 anos, encontrados em mais de 70 países. Cada um deles carrega o legado de Theofron Munktells, dos irmãos Bolinder, da Visão de Volvo, da audácia finlandesa.
O trator nórdico não é apenas uma máquina: é um testemunho de que, quando o conhecimento técnico encontra a paixão pela excelência, o resultado transcende o tempo e as fronteiras. É a prova de que, mesmo nas terras mais frias do Norte, pode nascer um império que aquece o coração do mundo.