Investigações

A Ameaça de Morte do Juiz Vani Bemfica ao Jornalista Mariano

Investigacao sobre a corrupcao na Comarca de Varginha: o controle das familias Bemfica e Rezende sobre o Judiciario local ha mais de cinco decadas.

12 min de leitura

Um Estudo de Caso sobre Abuso de Autoridade, Intimidação e a Fragilidade da Liberdade de Imprensa em Varginha Durante os Anos de Chumbo


1. Introdução: O Silêncio que Gritava nos Porões do Poder

Nos conturbados anos da ditadura militar brasileira, a cidade de Varginha, no sul de Minas Gerais — um município que ostentava o título de “Capital do Café” e se orgulhava de sua pujança econômica — foi palco de um episódio que expôs com brutal clareza as fissuras do poder local e a intimidação que podia emanar de quem deveria ser o guardião da lei .

Entre 1965 e 1971, o município viveu sob a influência de duas figuras centrais que, juntas, formaram o que a imprensa local e os relatórios de inteligência denominaram de “Sociedade de Fato”: o juiz Francisco Vani Bemfica e o deputado Morvan Aloysio Acayaba de Rezende . Em meio a esse cenário de poder absoluto, um incidente específico — a suposta ameaça de morte do magistrado contra o jornalista e diretor do jornal “Correio do Sul”, Mariano Tarciso Campos — emergiu como um símbolo do clima de terror que assombrava a comarca .

Este artigo se aprofunda neste incidente grave o suficiente para ser registrado em relatórios confidenciais dos órgãos de segurança da época, revelando um padrão de abuso de poder que transcendia o caso isolado e expunha a própria essência da cleptocracia que se instalara em Varginha. A ameaça, documentada com precisão pelos agentes do Centro de Informações do Exército (CIE), não foi um ato impulsivo de um magistrado irritado; foi a manifestação de um sistema que havia privatizado o Estado e transformado a justiça em mercadoria .


2. A Acusação: “Um Tiro” por Telefone — A Violência Verbal como Instrumento de Poder

A acusação central contra o juiz Bemfica foi documentada de forma inequívoca em um informe confidencial do Centro de Informações do Exército (CIE). O relatório, parte de um dossiê sobre as atividades do magistrado que se estendia por múltiplas esferas de sua atuação, afirma que ele ameaçou diretamente Mariano Tarciso Campos por telefone após a publicação de uma matéria crítica em seu jornal. A ameaça foi registrada com clareza pelos órgãos de inteligência, que não se limitaram a anotar o ocorrido, mas o interpretaram como parte de um padrão comportamental mais amplo :

“…ameaçou o senhor MARIANO TERCISO CAMPOS pelo telefone, de dar-lhe um tiro, isto porque publicou êle no seu jornal ‘CORREIO DO SUL’ notícia desagradável ao marginado.”

Este incidente foi utilizado nas investigações oficiais como um dos “fatos concretos” que evidenciavam o caráter “prepotente” do juiz, um traço de personalidade que seria corroborado por inúmeras outras denúncias e que os agentes federais consideravam intrínseco à sua conduta .

2.1 O Contexto da Ameaça: A Imprensa como Alvo da Ira do Magistrado

A ameaça não ocorreu em um vácuo. Ela foi a resposta direta a uma “notícia desagradável” publicada no “Correio do Sul”, um jornal que, na época, circulava na região e se permitia, ainda que com as limitações impostas pela censura, criticar as ações das autoridades locais . A liberdade de imprensa durante o regime militar era severamente restringida, e os jornalistas que ousavam desafiar o poder estabelecido frequentemente pagavam um preço alto — com suas carreiras, sua liberdade e, em casos extremos, com suas vidas .

O gesto do juiz Bemfica — pegar o telefone e ameaçar diretamente um jornalista — era uma mensagem calculada, destinada não apenas a silenciar o repórter individual, mas a enviar um sinal a toda a comunidade: a crítica não seria tolerada, e aqueles que ousassem desafiar o poder estabelecido enfrentariam as consequências .

2.2 O Significado da Ameaça: Violência Física como Extensão da Autoridade Judicial

A escolha das palavras — “dar-lhe um tiro” — é particularmente reveladora. Não se tratava de uma ameaça vaga ou de um aviso velado; era uma promessa explícita de violência física, proferida por alguém cuja função oficial era aplicar a lei. Essa inversão de papéis — o guardião da lei transformando-se em ameaça à vida de um cidadão — é o cerne do abuso de poder que os relatórios do CIE procuravam documentar .

A linguagem da violência era uma extensão natural da autoridade judicial em um sistema onde os freios e contrapesos haviam sido enfraquecidos. O juiz, imbuído de um sentimento de impunidade, podia transcender os limites de sua função e usar a intimidação física como ferramenta de gestão política .


3. O Contexto do Magistrado: Um Histórico de Controvérsias e um Perfil “Narcisista e Prepotente”

A ameaça ao jornalista não foi um caso isolado. Relatórios de diversos órgãos de segurança — do CIE ao Departamento de Ordem Política e Social de Minas Gerais (DOPS/MG), passando pela Polícia Federal — pintam um quadro de um magistrado que agia muito além de suas funções, acumulando acusações de corrupção, parcialidade e intimidação, sustentadas por uma aliança política fundamental que lhe garantia proteção e impunidade .

3.1 O Perfil Psicológico do Magistrado

Os relatórios de inteligência do CIE não se limitaram a documentar os atos do juiz; eles também tentaram compreender sua personalidade. O magistrado foi descrito como “narcisista, prepotente, megalomaníaco, vaidoso, politiqueiro e amigo do enriquecimento fácil” . Esse perfil psicológico, que se alinha com a caracterização de “temperamento prepotente” mencionada pelos órgãos de segurança, não é um detalhe irrelevante. Ele ajuda a explicar por que um juiz se sentiria à vontade para ameaçar um jornalista por telefone: a prepotência, o narcisismo e a megalomania criavam uma bolha de autojustificação onde a violência e o abuso de poder eram vistos não como crimes, mas como formas legítimas de exercício da autoridade .

Esse comportamento, descrito pelos agentes do CIE como um “temperamento prepotente”, não era uma falha de caráter individual, mas um reflexo do sistema de poder que o juiz ajudara a construir. Em Varginha, a toga não servia como símbolo de justiça, mas como escudo para a tirania .

3.2 A “Sociedade de Fato”: A Aliança Política como Fundação do Poder

A base do poder local de Bemfica foi sua associação com o advogado e deputado estadual Morvan Aloysio Acayaba de Rezende . Não se tratava de uma mera amizade ou de um acordo casual; relatórios da Polícia Federal confirmam que “o Dr. MORVAN foi o Chefe político que levou o Dr. BEMFICA para a Comarca de Varginha” . Essa relação de dependência política e econômica era a âncora do esquema de corrupção que dominava a cidade .

Com seu patrono político atuando como advogado na cidade, o juiz, segundo as investigações, funcionava como um “verdadeiro aliciador de causas” para seu parceiro, garantindo que este raramente perdesse um caso na comarca . A ameaça ao jornalista deve ser entendida, portanto, como parte de um esforço mais amplo para manter o controle sobre a narrativa pública e proteger os interesses da oligarquia que governava Varginha .

3.3 O Enriquecimento Ilícito e o Abuso de Poder

A ascensão do juiz Bemfica foi tão rápida quanto suspeita. Documentos do DOPS/MG registram que ele chegou a Varginha por volta de 1963 pobre, “sem mesmo ter recursos financeiros para sua mudança pessoal, o que foi feito por um caminhão da Prefeitura local” . Anos depois, desfrutava de uma “invejável situação econômico-financeira”, sob acusações de usar o cargo para obter vantagens pessoais .

Os relatórios do SNI estimaram que o patrimônio de Francisco Vani Bemfica cresceu a uma taxa anual de 380% — um número que, mesmo para os padrões da especulação imobiliária moderna, beira o absurdo . Essa riqueza acumulada não era fruto do trabalho ou do talento, mas da corrupção institucionalizada, onde o tribunal era usado como balcão de negócios e a lei era uma mercadoria à venda .

3.4 O Clima de Medo: “O Povo Tem Medo do Juiz”

O medo que o juiz impunha à população local foi formalmente registrado em um relatório da Polícia Federal, que, com base em depoimentos, concluiu de forma contundente: “o povo desta cidade tem medo do Juiz FRANCISCO VANI BEMFICA” . Esse medo não era irracional; era a resposta natural a um sistema onde a justiça não era cega, mas vendida ao melhor comprador, e onde a crítica poderia resultar em ameaças, perseguição ou mesmo violência física .


4. A Investigação Policial: Confirmação, Contradição e a Dinâmica do Medo

Quando a Polícia Federal aprofundou as investigações, em novembro de 1973, convocou o jornalista Mariano Tarciso Campos para depor. Seu testemunho ofereceu um estudo em contradição, uma demonstração vívida da dinâmica do poder e do medo que operava em Varginha .

4.1 O Testemunho Inicial: A Confirmação da Ameaça

Inicialmente, o jornalista confirmou o episódio, relatando que o juiz, irritado com uma matéria, telefonou e disse que resolveria a questão “como homem” — uma expressão que, no contexto, o jornalista interpretou como uma clara ameaça de violência física . A frase “como homem” carrega um peso específico; ela sugere uma resolução fora dos canais legais, uma abordagem direta e física para o conflito .

4.2 O Recuo: A Desculpa e a “Amizade” Pós-Ameaça

No entanto, no mesmo fôlego, o jornalista recuou, minimizando a gravidade do ocorrido. Explicou que o juiz se desculpou posteriormente, que os dois se tornaram amigos — uma amizade cimentada quando Bemfica interveio a seu pedido em um delicado assunto familiar envolvendo sua filha . A relação entre ofensor e vítima, que se transformou em “amizade” após a intervenção do magistrado, é um exemplo clássico da dinâmica de poder que caracterizava o regime: o juiz não apenas ameaçava, mas também era capaz de “perdoar” e “proteger”, criando uma relação de dependência que silenciava a vítima .

4.3 A Interpretação do DOPS: A “Desconfirmação” como Produto do Medo

Essa mudança de postura teve um impacto direto na conclusão oficial do caso. Para os investigadores do DOPS/MG, a explicação para o recuo era clara, e a intervenção do juiz no assunto familiar foi vista como a causa direta da mudança de atitude do jornalista. O relatório do órgão concluiu que a ameaça “Não se confirmou”, justificando que a não confirmação “deveu-se ao fato” de o juiz ter ajudado o jornalista, que agora se dizia seu amigo e declarava que “não está querendo mais confusão” .

O jornalista, tendo recebido o “favor” do juiz, estava agora preso a ele por um vínculo de gratidão e medo. Ele não estava mais disposto a “confusão”, porque a “confusão” poderia custar não apenas sua carreira, mas sua liberdade ou sua vida .


5. O Episódio na Narrativa Mais Ampla: Abuso de Poder e a Fragilidade da Liberdade de Imprensa

A história da ameaça ao jornalista Mariano Tarciso Campos é um microcosmo do exercício do poder em uma cidade do interior durante os anos de chumbo. De um lado, há o registro taxativo dos órgãos de inteligência do Exército, que viram no ato um exemplo concreto do comportamento abusivo do juiz . Do outro, há o recuo da vítima anos depois, motivado por uma aparente reconciliação e pelo receio de novos conflitos .

5.1 A Ameaça como Síntese do Sistema

Embora o jornalista tenha oficialmente suavizado sua posição, os relatórios iniciais e a vasta quantidade de outras irregularidades documentadas contra Francisco Vani Bemfica — do enriquecimento ilícito à intimidação sistemática de cidadãos, passando pela venda de sentenças e pela proteção à pedofilia — pintam um retrato convincente de um clima de medo e abuso de autoridade . A ameaça telefônica não foi um lapso de um juiz em um dia ruim; foi a manifestação lógica de um sistema que havia normalizado a violência como ferramenta de gestão .

5.2 A Impunidade como Motor do Abuso

Em uma era onde a liberdade de imprensa era suprimida e os mecanismos de responsabilização eram enfraquecidos por um regime autoritário nacional, déspotas locais como o juiz Bemfica podiam operar com um sentimento de impunidade, tornando o medo que ele inspirava ainda mais potente . O sistema não apenas tolerava o abuso; ele o incentivava, na medida em que a repressão à oposição — inclusive à oposição jornalística — era vista como uma virtude, não como um crime .

5.3 A Memória como Resistência

O episódio, independentemente de sua resolução formal, permaneceu nos arquivos da ditadura como um exemplo emblemático do “temperamento prepotente” que marcou a passagem do juiz por Varginha . Esses arquivos, desclassificados décadas depois, permitem que a história seja recontada, que a memória seja preservada e que as vítimas — como Mariano Tarciso Campos — sejam lembradas não como covardes, mas como pessoas que, na medida do possível, resistiram ao poder absoluto .


6. O Legado do Medo: A Perpetuação do Sistema

A ameaça ao jornalista não foi um incidente isolado; foi parte de um padrão de abuso que se perpetuou por décadas. O legado do juiz Bemfica e do deputado Morvan Acayaba — a “Dupla do Terror” — não se limitou ao período da ditadura. Seus herdeiros, incluindo o promotor Aloísio Rabêlo de Rezende e o advogado Márcio Vani Bemfica, ainda ocupam posições de poder em Varginha, mantendo viva a tradição de captura do Estado .

O medo que o juiz Bemfica inspirava na população — documentado nos relatórios da Polícia Federal — ainda ecoa nos corredores do Fórum de Varginha, onde a justiça é vista com desconfiança por uma população que aprendeu, através de gerações, que a lei é uma mercadoria à venda para os mais poderosos .


7. Conclusão: Um Retrato do Poder em Tempos de Chumbo

A história da ameaça ao jornalista Mariano Tarciso Campos é mais do que uma anedota histórica; é uma cápsula do tempo que contém a essência do regime de poder que dominou Varginha durante os anos de chumbo . Ela revela como o abuso de autoridade, a intimidação e o medo eram não apenas tolerados, mas institucionalizados, formando a base de um sistema de cleptocracia onde o Estado era privatizado em benefício de uma oligarquia local .

A ameaça de morte por telefone, registrada nos arquivos do Exército, não foi um ato isolado de um juiz irritado. Foi a manifestação de uma estrutura de poder que havia abandonado qualquer pretensão de justiça e se transformado em um instrumento de opressão e enriquecimento ilícito . O recuo do jornalista, sua “amizade” com o agressor, sua relutância em “confusão” — tudo isso é um testemunho da eficácia do terror como ferramenta de gestão política .

E, décadas depois, enquanto a FADIVA celebra Francisco Vani Bemfica como um “fenômeno do Direito” e um “visionário”, os arquivos do CIE e da Polícia Federal permanecem como testemunhas silenciosas de uma verdade que a cidade de Varginha ainda se recusa a encarar: a justiça, em seus anos de ouro, não era cega. Ela estava vendida. E o preço, como o jornalista Mariano Tarciso Campos aprendeu, podia ser muito alto .


REFERÊNCIAS DOCUMENTAIS

  • Relatório do Centro de Informações do Exército (CIE) — Dossiê sobre o Juiz Francisco Vani Bemfica, com registro da ameaça ao jornalista Mariano Tarciso Campos .
  • Informação nº 164/76 — Serviço de Informações da Superintendência Regional do DPF em Minas Gerais, 20/04/1976 .
  • Inquérito Policial Federal Nº 0042/71 — Departamento de Polícia Federal, com depoimentos sobre o clima de medo em Varginha .
  • Relatório do DOPS/MG — Registro da investigação sobre a ameaça e a conclusão da “não confirmação” .

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Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Não substitui orientação jurídica, psicológica ou institucional individualizada. Situações de violência real devem ser tratadas com seriedade, proteção imediata e atuação das autoridades competentes.